Parábola do samba-enredo (2014)

João do Pandeiro, morador de morro e compositor de Samba-Enredo, fez um samba sozinho e inscreveu no concurso de sambas de sua escola de coração. Perdeu na final, uma semana depois da inscrição. Para compor, inscrever e participar da disputa, não gastou mais que duas cervejas. No outro ano, encontrou um amigo bom de melodia e os dois compuseram novo samba. Dessa vez, ganhou, interpretando, ele próprio, o samba. E gastou apenas quatro cervejas. Nos concursos seguintes, João percebeu que não ganhava mais. Reparou também que os sambas inscritos eram assinados por pelo menos dois compositores. E, curiosamente, os que ganhavam tinham bons cantores. João, então, decidiu convidar um intérprete para cantar seus sambas. Chegou à final novamente, mas não ganhou. Gastou as cervejas e o preço acertado com o cantor. No ano seguinte, caprichou no samba outra vez e contratou um cantor de apoio. Ganhou de novo. Porém, gastou bem mais. O tempo passou e João voltou a perder. Viu, então, que os sambas vencedores tinham pelo menos dois cantores, um surdo, um violão, além do cavaquinho. E havia gente torcendo por eles. João, então, resolveu convidar Seu Manoel da Padaria para assinar o samba com ele, porque os custos seriam maiores. Seu Manoel, muito vaidoso, aceitou. Com três compositores, e um bando de portugueses na torcida, o samba de João chegou à final e ganhou de novo. Festa na padaria. João gastou, mas Seu Manoel gastou muito mais. Outras derrotas vieram. E João começou a ficar desiludido. Coincidentemente, os sambas vencedores levavam pelo menos quatro bons cantores, um ônibus com torcida, papel picado e bandeiras. João precisou convidar Seu Manoel da Padaria, Seu Jorge do Açougue, além de Marcinho Professor, que dava aula para três turmas lotadas de jovens apaixonados por samba. E convidou também o Rogerinho da Viação Flecha, porque conseguia ônibus de graça. Seu samba chegou à final, após oito semanas de apresentações e quadra lotada. Que festa! E o samba de João venceu novamente. O prêmio foi alto, mas depois de fazer a divisão entre os colaboradores, e abater os gastos, sobrou apenas o orgulho pela vitória. João voltou a perder nos anos seguintes. Observou que depois de treze apresentações, todas as parcerias finalistas eram formadas por pelo menos vinte pessoas, roupas padronizadas, torcidas organizadas (e bem alimentadas), papel picado, alegorias, bandeiras, bolas caindo do teto, bomba de serpentina, fogos de interior, telão de led, carro de som, canhão de luzes, danças coreografadas, faixas e adesivos com o refrão, além de quinze mil prospectos e cinco mil CDs distribuídos durante todo o concurso. A neta de João disse a ele que o samba campeão havia sido muito bem comentado nas redes sociais e que tinha feito um clipe que bombou no youtube durante toda a disputa. João não acessava a Internet. Ficou desiludido mais uma vez. No último ano, apenas quatro parcerias tiveram coragem (e orçamento) para se inscrever na disputa, e todas com compositores mesclados de outras escolas. Na lista de compositores inscritos, havia seis cantores de renome, um jogador de futebol, vinte e cinco empresários e um político. João assistiu à vitória de um samba que gastou o equivalente a um imóvel e levou duas mil pessoas à quadra na final... cantando. E João, que ainda morava de aluguel, concluiu que não dava mais para ele. Os sambas dele já não tocavam mais na quadra porque não se encaixavam no formato novo. João morreu no dia de uma final de sua escola de coração. Mas nem sequer foi feito o minuto de silêncio. O cara responsável estava ocupado no celular, tentando acessar a rede wi-fi, para publicar uma foto com a rainha de bateria, enquanto o cantor da Escola interpretava os versos: Não deixe o samba morrer.... 


Trecho do livro “Dreamaker – O Realizador de Sonhos” (2010)

(...) Ao logo da década anterior, uma família de ciganos costumava visitar Mesla fazendo grande alvoroço com apitos e tambores. Era sempre uma alegria especial receber aquele povo que trazia novidades do mundo inteiro. Por alguma razão, porém, o grupo deixou de aparecer na cidade. Ninguém soube dizer o paradeiro deles. O fato é que eles nunca mais retornaram. Por esse motivo, a visita de qualquer forasteiro sempre causava furor na população. Naquele ano, não seria diferente.
Num domingo pela manhã, um homem entrou sozinho em Mesla, numa carroça coberta, puxada por dois cavalos de pelo marrom. Existia um cartaz afixado em cada lateral da carroça. No texto existente neles, o estranho prometia levar versos encantados aos moradores daquele pequeno vilarejo, numa apresentação única, próxima ao coreto da praça, em troca de algumas moedas.
A timidez daquele senhor contrastava com a algazarra que o povo fazia em volta. Chegou calado, com a franja de cabelos pretos quase cobrindo os olhos. Os cavalos andavam, vagarosamente, com as cabeças baixas, como se estivessem cansados, desanimados, sem vida. A carroça parou na praça, à sombra de uma enorme amendoeira. O homem desceu lentamente, deu comida e água aos animais, entrou no fundo da carroça e lá permaneceu. 
O povo se revezava em volta da carroça à espera dos versos encantados prometidos na propaganda. Melck também ficara ali para assistir à apresentação. Ao primeiro sinal do poeta, alguém mandaria avisar o restante dos moradores e logo uma multidão se aglomeraria na praça. Com o sumiço dos ciganos, era difícil aquele povo receber visitas de qualquer natureza, ainda mais a de um poeta. Ninguém queria perder a oportunidade.
Quando a maioria começou a desistir, dois autofalantes surgiram no topo da carroça. O homem triste que pouco antes havia entrado, agora era um poeta bem vestido, de fraque, cabelos penteados para trás, e com gestos de um orador profissional. Em minutos, toda a carroça, como uma carruagem, estava enfeitada e cercada de luzes. Os cavalos receberam plumas, perfume, pareciam mais vivos, alegres, mais potentes. O homem não revelou seu nome a ninguém, apenas se apresentou como poeta.
Não demorou e a notícia correu a cidade. A vizinhança logo partiu em bandos para o local. Professores cancelaram seus afazeres e convidaram os alunos para se dirigirem à praça. Também estavam lá Jerôme, Igor, Marie, suas irmãs, e respectivas famílias. Àquela altura já havia gente de outros povoados, forasteiros de passagem, políticos, representantes da igreja local, um sem número de comerciantes e aproveitadores de todo tipo.
O poeta iniciou sua apresentação com versos que valorizavam a união entre os povos. Em seguida, desfiou redondilhas de amor, saudade, solidão, e todo sentimento comum a qualquer pessoa. O público se reconhecia nos poemas e se emocionava. Um ou outro morador arriscava sugerir uma temática e o bardo misterioso atendia de pronto.
— Fale sobre o casamento! — Pediu uma jovem que sonhava encontrar seu amor.
E por que não, senhorita? — Respondeu o poeta, antes de recitar um soneto sobre o assunto.
— Agora uma poesia sobre o trabalho! — Gritou o dono da quitanda.
— Com todo prazer, senhor! — Respondeu novamente, sem se intimidar.
A cada poema recitado, Melck e os amigos aplaudiam cheios de entusiasmo. Uma cartola deixada à beira da calçada enchia de moedas à medida que as poesias eram interpretadas pelo estrangeiro. Ele era mesmo de outra região. Ninguém conseguia decifrar a nacionalidade que, a princípio, lhes pareceu latina. Um acento estranho na voz do qual o povo local não conseguia distinguir a origem. Mas isso não importava. O sotaque até lhe dava o charme intelectual de que precisava para ganhar respeito do público.
A apresentação estava quase no fim, quando o poeta avistou o rosto de Melck e ficou em silêncio. A identificação daquela pessoa especial ali no meio da multidão foi uma descoberta inesperada. Uma grata surpresa que precisava ser comemorada com a poesia que melhor conviesse. Naquela fração de segundos, o poeta encarou Melck e vice-versa. O povo nada entendia, apenas continuava atento aos dois.
O estranho decidiu, então, quebrar o silêncio, avisando a todo mundo que iria dedicar-lhe um poema. Ninguém precisava entender. Era apenas uma homenagem. Não existia técnica, metrificação; havia, sim, o desejo de fazer aquelas palavras ecoarem no subconsciente do homem que assistia a tudo da platéia. (...)


Orelha do livro “Entreteias” (2007)

“Entreteias” chegou às minhas mãos em folhas avulsas de papel reciclado, sem o acabamento visual elaborado pelas editoras. A agitação do dia-a-dia me obrigou a deixá-lo sobre a mesa da sala por duas semanas, ainda que o nome da obra tenha despertado em mim um interesse que me corroeu por todo esse tempo.
A leitura de um livro começa pelo título. É a partir dele que o imaginário do leitor vai ser moldado. O neologismo aqui presente sugere de modo fulminante a atmosfera moderna em que o leitor está prestes a penetrar. A suspeita inicial é confirmada logo nos primeiros “cantos”, em que o autor assume uma postura filosófica, reflexiva, ao longo de versos brancos, dispostos sem o rigor formal tão característico da poesia clássica.
Na temática também é assim, por isso não espere encontrar aqui poemas de amor dilacerante, paixões arrebatadoras, confissões de um “eu” lírico escancarado. Não é esse o propósito do livro. Para mim, que tenho a sorte de manter os olhos e a mente no século XXI e o coração no século XIX, foi uma grata surpresa essa constatação, o que me causou uma estranheza só denunciada pelos olhos de quem vê o novo pela primeira vez.
O poeta Diego Braga não escreve poesia popular, não redige aquele verso que se compreende na primeira leitura; produz, antes de tudo, um texto desafiador, instigante, que exige do leitor o raciocínio, o cuidado, a reflexão. Esse traço revela, na intuição de minha sensibilidade, o grande mérito do livro. A poesia dele, elaborada dessa forma, se apresenta a maior parte do tempo exalando o aroma fresco da vanguarda.
Em seu estro, ele usa e abusa de recursos linguísticos que visam, sem qualquer prepotência, reinventar a língua, esmiúça-la, virá-la do avesso até, se necessário for, só para traduzir o sentimento preciso, muitas vezes descrevendo a “aparência” do abstrato, como se fosse um exercício literário desafiador e complexo.
O jogo de palavras, a antítese, o anagrama, a influência de Fernando Pessoa e dos gregos, o neologismo de James Joyce e Guimarães Rosa, a poesia visual, herança concreta dos irmãos Campos e Décio Pignatari, a natureza, os Deuses, o tudo e o nada, o muito e o pouco, desfilam nas páginas desse livro, cuja leitura me deixou convicto, nas palavras do próprio autor, de que “tudo é um deixar de ser outra coisa”.


Apresentação do livro “Pequenos Sons” (2003)

            O soneto surgiu no início do século XIII, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II, a exemplo das tradicionais baladas provençais. Atribuído por alguns à Jacopo da Lentini, o soneto tornou-se mais conhecido depois de aperfeiçoado por Francesco Petrarca.
            Nada disso era de meu conhecimento quando resolvi escrever poesias no final dos anos 1980. Descobri a literatura quando cursava o Ensino Médio no Colégio Pedro II. Na época, assombrei-me diante da poesia fundo-de-poço dos poetas ultra-românticos, sobretudo Álvares de Azevedo. Eu estava no auge de minha adolescência e era dotado de uma personalidade muito mais oitocentista que qualquer outra coisa. Num período em que o Rock brasileiro explodia nas rádios e o país continuava sua cavalgada em busca de uma democracia madura e completamente desintoxicada do que havia bem pouco tempo antes, eu estava mergulhado na poesia romântica do século XIX.
            Não me envergonho disso, pois esse primeiro contato, na contramão de tudo e de todos, foi o que fez brotar em mim o amor à poesia, à literatura, aos livros. Assim, pois, o maravilhoso universo das palavras chegou tardiamente ao meu conhecimento. Essa constatação, no entanto, nunca me abateu. Levado pelas mãos de poetas como Álvares de Azevedo, Castro Alves e Casimiro de Abreu, devorei quase todos os autores daquela geração. Esgotados esses autores, busquei outros mais, numa progressão geométrica que se mantém até os dias de hoje. Foi no meio dessa viagem sem volta que conheci essa fascinante forma poética intitulada: Soneto.
            Ainda sem saber as complicadas regras existentes nas entrelinhas dos quatorze versos de um soneto, fiquei apaixonado por sua beleza singular. Não me lembro do primeiro que li, mas tenho comigo os muitos ensinamentos absorvidos durante a leitura de vários deles. E, olha, foram muitos e de muitos autores diferentes. Olavo Bilac, Raimundo Correia, Cruz e Souza, Castro Alves, Camões, Bocage, Florbela Espanca, Augusto dos Anjos, Machado de Assis, Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, são apenas algumas fontes das quais bebi até a última gota.
            O fascínio aumentou quando me dei conta do enorme desafio que é, para um poeta, escrever um legítimo soneto, com suas principais regras obedecidas rigidamente. Como já disseram, “escrever um soneto é esculpir uma gaiola de aço que prenda pássaros de ouro”. Só mesmo quem já se aventurou a escrever esse tipo de poema sabe do que estou falando. Por amar tanto a forma, achei-me no direito (quiçá, prepotência) de também escrever um. Nossa, como foi difícil. Mas, enfim, o tempo, o esforço, o amor, a força de vontade e sei lá o que mais, permitiram-me evoluir de modo a produzir meus primeiros sonetos. Nada que me estimulasse muito. Assim mesmo não desisti. Melhorei um pouco mais e comecei a produzir os primeiros protótipos considerados, por mim, dignos de compor um livro.
            Não quero mendigar elogios. Sei que já escrevi bons sonetos, todavia, também sou consciente de minhas falhas e, por esse motivo, tenho muito a aprender. Este livro é o resultado de tudo isso. Amo tudo que escrevi. Está aí, para quem quiser ler, sentir, gostar, até mesmo jogar pedra. Minha literatura, no entanto, segue para outros rumos.
            Não sei em que medida o texto clássico se fará presente nas minhas obras daqui em diante. A decisão de publicar este livro está intimamente ligada a este fato. Mas isso é assunto para o futuro. Por ora, vamos mergulhar nos Pequenos Sons de uma “sonetoterapia”. E para terminar, seguirei o conselho de meu amigo Piotr Slacen: favor usar com moderação.

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