Oração carioca

Cristo nosso que estais no Corcovado,
Santificado seja o vosso Rio,
Sejam belas vossas praias,
Do Leme ao Pontal...
O Pão-de-Açúcar nosso de cada dia nos dai hoje,
Perdoai-nos em fevereiro, é Carnaval.


Direito penal

Diz o Direito:
Não há homicídio sem morte!
Mas eu me pergunto calado:
O que pode o juiz fazer,
Se eu morrer, aqui, de saudade,
Vivendo de amor por você?


Direito Penal II

Não se condena duas vezes
Pelo mesmo crime.
Assim afirma o Direito.
Mas eu não aceito!
Ontem, morri de saudade;
Hoje também; amanhã idem,
Depois, bis in idem...
E você, solta no mundo,
A zombar dessa gente,
Continua a me matar impunemente.


Poema de aniversário

Procurei no dicionário,
Com paciência e cuidado,
O real significado
Da palavra aniversário.
Aquele livro pesado,
Mestre dos visionários,
'Pai dos burros' batizado,
Pareceu-me sectário,
Ao responder meu chamado.
Deveras decepcionado,
Joguei o meu dicionário
Na estante, empoeirado,
Para pregar, solitário,
O meu significado
Da palavra aniversário.
Diz assim, o verbete lendário,
Ontem, por mim criado:
“Aniversário: Espécie de relicário,
Muitíssimo bem guardado
Nas folhas do meu diário,
Dos versos que eu escrevi,
Com todo amor, e não li,
Durante o ano passado”.

 
Parábola do vaga-lume

Fito, à noite, um pequeno vaga-lume,
Que, bailando ao frescor da madrugada,
Como a luz que desponta na alvorada,
Cintila alegre no total negrume.

Embora eu saiba quão pequeno é o lume,
Fito em silêncio, e, sem dizer-lhe nada,
Ali, na placidez desesperada,
Paro e medito à luz que se resume:

“Se tão pequeno inseto, calmamente,
Na noite escura e tenebrosa, trilha
Um caminho de luz fosforescente,

Eu, humilde, ante a esta maravilha,
Não consigo entender por que, descrente,
A luz da humanidade inda não brilha!?”


La dolce vita

O doce que ela vendia
Não tinha açúcar somente...
Tinha outro ingrediente,
Que no peito se escondia.
Inocente — Eu não sabia...
Por isso, frequentemente,
Depois do almoço, eu comia
Aquele docinho quente,
Bem crente que me valia,
Assim, de modo patente,
A sobremesa do dia.
A cada doce eu sentia
Algo um pouco diferente...
À tarde — um bom-bom de nozes,
À noite — um sorriso quente,
Que na boca derretia.
E o meu coração fremente,
A cada hora mais forte,
Palpitava pela moça,
Que aquele doce vendia.
Era amor adolescente,
Um amor de livraria,
Veloz, apressado, urgente,
Amor meigo, inconsequente,
No meio daquela gente,
No meio da euforia,
Amor sensível, pungente,
Que aflorava à revelia,
Povoava a minha mente,
E o coração preenchia.
Era, de fato, um presente,
Uma alegria contente,
O amor que entre nós surgia.
Contudo, esse amor ardente
Tornou-se meu penitente,
Meu carrasco, minha harpia,
Minha dor, minha serpente,
E o meu maior delinquente.
Roubou, de mim, a alegria
De amar no meio da gente,
De amar em plena euforia,
Como faz o adolescente.
Tirou, de mim, friamente,
O doce que eu mais queria,
O meu último pedaço,
Minha última fatia...


Soneto ao poema não escrito

Que saudade daquela que eu não vi,
Não toquei, não senti o aroma e não
Pude dizer-lhe nenhuma canção.
Saudades das canções que não ouvi,

Puras, ao lado dela, e bem aqui,
Nos jardins da minha imaginação.
Não confundir com alucinação,
Mas, predição é o que vem por aí.

Forma de luz em anunciação,
Sinto um amor que ainda não senti.
Tenho brigas e até separação.

São saudades do livro que eu não li.
Dos poemas de amor e exaltação,
Que, embalado, ainda não escrevi.


Estrela peregrina

Estrela que risco o céu,
Em noites de negro véu,
Por sobre os que estão ao léu
Povoados de ilusão.
Brilha em total plenitude,
Qual notas de um alaúde,
Espalhando-se em virtude,
Nos hinos de uma canção,
Doce estrela peregrina
Que pareces pequenina,
Ante a presença divina
Em negro véu da amplidão.
Meu nauta do céu escuro,
Eu cá de cima do muro,
Fitando o teu rastro puro
No negro da imensidão,
Penso em contar-te um segredo,
Não digo, pois tenho medo,
Quando apontar-te o meu dedo
Verás no meu coração.
É isso mesmo que viste
Um coração puro e triste
Por saber que o amor existe
Mas longe de minha mão.
Peço-te, estrela bendita,
Pela fronte que te fita,
Pelo seio que palpita
À procura de emoção.
Pela dor de estar sozinho,
Pelas pedras de um caminho,
Sem luz, amor ou carinho,
Nem falas de uma paixão.
Peço com toda humildade,
Procura, ali na cidade,
Um amor que de verdade
Vá curar meu coração.


Soneto aos olhos teus

O mar, ao ver teus olhos, se emudece.
Disse o mar, uma vez, que tinha medo,
E, banhando as paredes de um rochedo,
Disse que em teu olhar se reconhece.

Mentira quando dizem que parece.
Pois é, antes de tudo, e sem segredo.
Verdade quando o azul do mar, bem cedo,
Lembra que de teus olhos não se esquece.

No azul do mar, depois da tempestade,
Pude rever o teu olhar profundo,
E a natureza dizia a verdade,

Pois, no lampejo breve de um segundo,
Deu aos mares do mundo a eternidade,
Deu a luz de teus olhos para o mundo.


Meu verso

Meu verso é fogo, é brasa incandescente,
Vapor lascivo em cândido perfume,
Vazão da dor que o próprio artista sente.

Meu verso é topo, é da montanha o cume,
Desponta à vida em frases convertido,
Levando à prosa as dores do ciúme.

É anjo de minh’alma concebido,
Menino ingênuo em colo recostado,
Único filho em leito adormecido.

Segredo antigo às folhas revelado,
Meu verso é brilho, é pedra preciosa,
Rubi por mãos de artista lapidado.

É do jardim a flor mais melindrosa,
Dos colibris o beijo mais fagueiro,
Beleza rara em pétala de rosa.

Meu verso é luz, amor mais verdadeiro,
Paixão contida em sangue derramado,
E fé deixada aos passos do romeiro.

Sombra de amor em lúcido passado
Paixão presente em métrica perfeita,
Odor que exala um peito apaixonado.

Pequeno grão em tímida colheita,
Meu verso é puro e honra como um filho
O amor que sente à estrofe que lhe aceita.


Soneto de sono profundo

À noite, cai do céu um pó brilhante,
Invisível, penetra nas narinas,
E dos olhos as tímidas meninas,
Desmaiam no piscar daquele instante.

Falo de um céu imenso e deslumbrante,
Do qual, as invisíveis purpurinas,
Mergulham nas pupilas pequeninas,
Que teimam percorrer o céu distante.

Depois, sentindo as vistas já cansadas,
O milagre começa a se cumprir,
As pálpebras agora estão pesadas.

Não há fuga e nem posso resistir,
É tarde, e de pupilas desmaiadas,
Despenco em minha cama e vou dormir.


Eu me lembro...

Eu me lembro, eu me lembro...
Em meados de dezembro
Um menino conheci.
Eu ainda era criança
Quando brilhou a esperança
No então menino que vi.

Deixei de ser pequenino
Mas meu amigo menino            
Não deixou de ser criança.
E todo mês de dezembro
Em seus olhinhos, me lembro,
Brilhava a luz da esperança.

Sim, na noite de Natal
De Belém vinha um sinal
Ao som de um sagrado hino.
Uma estrela me dizia
Que se chamava Maria
E que era mãe do menino.

Então num clarão divino,
O meu amigo menino
Surgia em forma de luz.
Todo de branco, vestido,
Sussurrava ao meu ouvido,
“Eu sou o menino Jesus”.


Soneto a um condenado à morte
(Tragédia na França do Século XIX)

A Victor Hugo
(Le denier jour d’un condamné)

Fria sentença: à morte condenado,
Ideia lúgubre lhe vem à mente,
Sorte dele e da lâmina serpente
Que, juntos, selam o fúnebre noivado.

A poucas horas do terrível fado,
A guilhotina é preparada. Rente,
Um cesto é posto, onde, ao olhar da gente,
O cadafalso espera o renegado.

A multidão se estreita, ali, na esquina
Da grande Praça, palco do infeliz
Que espera a hora da carnificina.

— Não há mais tempo (o atroz carrasco diz),
Está na hora — desce a guilhotina...
Cala-se a voz, mas quem morre é Paris.


Oração a uma menina

Cheguei bem perto, junto de um madeiro,
À sombra deste rosas espalhadas,
Nos ares um perfume virginal
Essência que encharcava as mãos cerradas
De menina.

Era um anjo na flor da juventude
Que aos céus na tenra idade regressou.
Alvo lírio que à vida despontava
Flor bendita que um dia Deus chamou
De menina.

Cheguei mais perto, ergui a fronte aos céus
Na terra, meu joelho recostava,
Junto ao peito as mãos frias, mas unidas
Naquela triste manhã eu rezava.
Assim, menina:

“Senhor, meu Deus! Um anjo vos procura,
Bem pouco aos vossos olhos estará,
Lançai neste arcanjo o vosso amor.
Esteio que os seus entes erguerá.

Vós que sois justo, vós que sois clemente,
Perdoai os que choram pela morte
Rogai conforto, amparo e proteção
Aos que choram tal perda muito forte.

Senhor, meu Deus! Meu guia e meu pastor,
Olhai esta menina com carinho,
Guardai para ela um bom lugar,
Sagrada seja à luz de seu caminho.

Que o pranto seja breve em nossos olhos,
Levai, Senhor! Convosco o triste leito,
Guardai também convosco o nosso anjinho
Que clama a reclinar-se em vosso peito.

Pela brisa que sobra nas montanhas,
Peço, enfim, meu Senhor de luz divina,
Como um cativo de vossa vontade,
Abençoai esta alma de menina,
Amém!”

Foi quando um fogo despontou nos céus,
Crepitando o carvalho do madeiro
Ateando fogo ao leito solitário,
Deixando iluminado o seu cruzeiro.

Coloquei-me de pé, e então notei
Que um milagre entalhara aquela cruz.
Ainda em brasa, dizia a inscrição
No brilho incandescente de uma luz:
“AQUI JAZ, MAS NÃO PARA SEMPRE”.


Soneto para encontrar o meu Amor

Preparai as carruagens, meus senhores,
Que eu preciso encontrar o meu amor,
Fazei hoje uma prece em meu favor,
Pois que esta noite é cheia de temores.

Aqui deixo meus míseros valores,
Levo uma espada e a cruz do Redentor,
Encontrarei, em nome do Senhor,
Aquele santo amor dentre os amores.

Assim, pois, baterei de porta em porta,
Casa por casa ouvirá meu clamor;
Direi, senhores, que a esperança é morta,

Mas, se cobrir-me da morte o palor,
Enganai-vos, que a paz não me conforta,
Pois preciso encontrar o meu amor.





2 comentários :

Luciana Souza disse...

Divinas... Amo poesias! Obrigada por nos proporcionar tanta... sensibilidade!

Carlos Eduardo Drummond disse...

Oi, Luciana! Obrigado. Poesia, de fato, faz muito bem à saúde!
Bjs